O Irã é a única teocracia do mundo moderno, um país onde as estruturas de poder político e espiritual se confundem. Lá, há eleições diretas para presidente da República a cada quatro anos. Há também um Parlamento, formado por 290 legisladores eleitos, responsável por propor e aprovar leis. Mas quem detém o poder, em última instância, são líderes religiosos. Os aiatolás são os responsáveis por supervisionar as eleições e por dizer se a legislação aprovada pelo Parlamento é ou não compatível com a Sharia, a lei islâmica. Eles controlam também o Judiciário e as forças de segurança, incluindo a polícia moral, que vigia o cumprimento das regras de conduta islâmica.

Na prática, a autonomia do presidente e dos parlamentares depende de seu grau de identificação com o islamismo xiita professado pelos aiatolás. Os líderes religiosos acumulam as prerrogativas de chancelar eleições, de sancionar as leis e de julgar os cidadãos. Quem concentra as decisões sobre os rumos do país é o Conselho de Guardiões, um órgão composto de 12 notáveis. Seis deles são escolhidos pelo líder religioso supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

Em xeque por causa dos protestos, esse regime político único, em que os cidadãos estão submetidos a uma moral religiosa, é resultado da revolução iraniana, comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini em 1979. A revolução implantou uma república islâmica e acabou com 2.500 anos de monarquia no Irã, cuja origem remonta a Ciro, o Grande, que uniu o povo persa sob um mesmo império. Os últimos 37 anos desse império foram comandados pelo xá Mohammad Reza Pahlevi, que tentou ocidentalizar o Irã à força, criando ressentimentos religiosos que levaram à revolução de Khomeini. Ao contrário do que pregavam os muçulmanos, Pahlevi se recusou a banir o jogo, bebidas alcoólicas e o sexo antes do casamento. Maquiagem e roupas curtas estavam liberadas para as mulheres. Havia cinemas e bailes dançantes no país. Durante a década de 1970, nem mesmo o calendário lunar, adotado pelos islâmicos, podia ser usado. No país vigorava o calendário solar, o mesmo do Ocidente.

Essa “modernização” seguiu o mesmo modelo autoritário e corrupto de alguns dos xás que antecederam Reza Pahlevi. Durante o fim do século XIX e início do século XX, eles alienaram as jazidas de petróleo do país ao Império Britânico e à Rússia. O dinheiro obtido com o petróleo era gasto sobretudo em armamentos, enquanto parte da população vivia na miséria. Sob o governo de Reza Pahlevi, não havia liberdade de imprensa ou de criação de partidos políticos, o Exército foi fartamente armado e uma polícia política, a Savak, foi criada para prender, torturar e até matar os opositores à monarquia.

Em 1977, a Anistia Internacional considerou o Irã o país de menor respeito aos direitos humanos, a despeito de concorrentes como o Chile de Augusto Pinochet. Na economia, as coisas não iam melhor, embora o Irã conhecesse, na década de 70, o esplendor de sua receita com petróleo e faturasse praticamente o dobro que o Brasil em exportações. Quase metade da receita iraniana, no entanto, era investida em armamentos e não chegava à população. A inflação atingia 50% ao ano, e a produção de alimentos experimentava uma queda provocada, entre outros motivos, por um êxodo rural maciço. Na capital, Teerã, os camponeses recém-chegados engrossavam as fileiras de desempregados, sem apoio social, de saúde ou mesmo sanitário.

O governo iraniano gozava de mais prestígio na comunidade internacional do que dentro do próprio país. Em plena Guerra Fria, o xá Reza Pahlevi conseguiu estabelecer uma parceria comercial com os Estados Unidos nos setores de petróleo e de armamentos. Mas mantinha também boas relações com a União Soviética, que via em Pahlevi uma posição moderada em relação ao socialismo. Internamente, os templos religiosos se tornaram o único lugar onde o regime do xá não impunha sua pesada vigilância política e intelectual. Os milhares de mesquitas do país viraram locais de propagação de ideias contrárias a Pahlevi. De acordo com os especialistas, foi assim que a massa de iranianos se organizou em torno da liderança do aiatolá Khomeini.

O processo foi lento mas tão bem planejado que Khomeini precisou de apenas dez dias no país para tomar o poder. Khomeini, então com 78 anos, vivera exilado ao longo de 15 anos. Mudou-se para o Iraque e, depois, para a França após duras críticas ao modo como Reza Pahlevi conduzia o país. No dia 1º de fevereiro de 1979, Khomeini voltou ao Irã. No dia 10 de fevereiro, ele provocou uma mudança definitiva da ordem política e social do país. As cenas daquele dia lembravam as da Revolução Russa, de 1917, ou mesmo da Francesa, de 1789. Pelas ruas os homens faziam barricadas e se vestiam para morrer pela causa islâmica. As mulheres abandonavam as roupas ocidentais e cobriam-se com seus xadores (traje feminino usado em alguns países islâmicos que cobre todo o corpo, à exceção dos olhos). Elas ajudavam os homens a se armar. E as Forças Armadas do país recusavam-se a reprimi-los. Diante do aumento da revolta, o xá Reza Pahlevi partiu para o exílio no Egito. Deixou em seu lugar um primeiro-ministro que pouco resistiu aos planos do aiatolá Khomeini. A revolução deixou cerca de 200 mortos. Acarretou invasões a diversos prédios públicos de administração e provocou a soltura de 11 mil detentos da então maior prisão do país. Tudo obra das massas animadas pelas palavras de Khomeini.

Revista Época